Estudo feito pelo neurologista Abouch Krymchantowski sugere que pessoas com enxaqueca podem apresentar um aumento da freqüência de crises, além de modificações nos efeitos colaterais, após a substituição do medicamento de marca pelo genérico. Para chegar a essa conclusão, publicada na Revista Brasileira de Neurologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o médico acompanhou um de seus pacientes e suas reações clínicas a duas versões do princípio ativo topiramato, a droga de marca e a genérica.
Para quem se adianta e acredita que a amostra pesquisada – um paciente apenas – é insuficiente para levantar polêmica e questionar a eficácia dos genéricos, o médico Abouch cita outros motivos que o levam a não receitar as versões de remédio mais baratas a seus pacientes. “Eu não contra-indico genéricos apenas pelas evidências de um caso. Tomei essa atitude, porque a minha experiência diz que o remédio de marca funciona melhor. Além disso, a literatura médica internacional oferece um respaldo a esse meu achado com estudos semelhantes sobre epilepsia”, explica o neurologista.
Segundo a assessoria da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o órgão garante a bioequivalência de todos os medicamentos genéricos vendidos no Brasil, que recebem o registro no Ministério da Saúde. Ou seja, que essas versões apresentam as mesmas fórmulas e indicação terapêutica que seu equivalente de marca. Os médicos, porém, têm autonomia para prescrever o que quiserem.
O médico Abouch rebate e diz que não é a bioequivalência que está em discussão, mas sim o resultado provocado pelos genéricos. “Não adianta só testar a semelhança dos medicamentos em laboratórios, é preciso acompanhar o que acontece depois nos pacientes. A bioequivalência não é o mesmo que eficácia idêntica”, afirma.
De acordo com Deusvenir Carvalho, professor de Neurologia e chefe do setor de cefaléia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a metodologia da Anvisa para testar a bioequivalência não é totalmente segura. “Não basta ser bioequivalente, há uma série de outras qualidades farmacológicas que são necessárias. As pesquisas feitas in vitro (no laboratório) precisariam ser estendidas com maior rigor a outros aspectos das drogas”, esclarece o professor, destacando a importância do acompanhamento clínico de cada caso.
E mesmo se fosse necessário somente o perfil bioquevalente dos medicamentos, esse quesito já abriria margem para discussões. Segundo Carvalho, legalmente é exigida uma bioequivalência entre 80% e 125%. “Essa janela pode fazer a diferença, principalmente em casos de doenças crônicas, que exigem um desempenho constante do medicamento”, afirma, se referindo a trocas de remédios durante um tratamento.
A polêmica é levantada no próprio site da Anvisa, onde está registrado que: “a bioequivalência, na grande maioria dos casos, assegura que o medicamento genérico é equivalente terapêutico do medicamento de referência, ou seja, que apresenta a mesma eficácia clínica e a mesma segurança em relação ao mesmo”. O fato é que a “grande maioria dos casos” não engloba todos os casos.
O professor Deusvenir, da Unifesp, reconhece que os genéricos trazem um grande benefício para o bolso da população. No entanto, pensando unicamente no aspecto da saúde, ele valoriza o remédio de marca. “Como médico, você oferece a melhor opção ao paciente, que é o medicamento que passou por diversas pesquisas e tem sua eficácia testada e comprovada. Mas isso, às vezes, esbarra em um problema de custo. Por isso, cabe ao profissional indicar uma alternativa que atenda de todas as formas aquele paciente”, explica.
Procurada pela reportagem do Terra, a Pró Genéricos (Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos) disse, por meio de sua assessoria, que vai se posicionar somente quando conseguir analisar o artigo do neurologista Abouch Krymchantowski. Nenhum representante da Associação se pronunciou sobre a eficácia e segurança dos remédios que representam.
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